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Lucille Bogan, nós e o sexo

categoria : Cairo Braga, Fluxo de Consciência, lgbt, Música abr 7th, 2011

Há algum tempo o querido Felipe Killer (do Vinyyyl) postou em seu twitter um link para uma música um tanto quanto surpreendente para ouvintes mais incautos. Era uma versão “secreta” de um sucesso da cantora de jazz dos anos 20, 30 e 40 Lucille Bogan: “Shave’em Dry“.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=2ko2VXpW7_g&w=490]

Acompanhe a letra:

I got nipples on my titties, big as the end of my thumb,
I got somethin’ between my legs’ll make a dead man come,
Oh daddy, baby won’t you shave ‘em dry?
Now, draw it out!
Want you to grind me baby, grind me until I cry.
(Uh, huh.)
Say I fucked all night, and all the night before baby,
And I feel just like I wanna, fuck some more,
Oh great God daddy,
(Say you gonna get it. You need it.)
Grind me honey and shave me dry,
And when you hear me holler baby, want you to shave it dry.
I got nipples on my titties, big as the end of my thumb,
Daddy you say that’s the kind of ‘em you want, and you can make ‘em come,
Oh, daddy shave me dry,
(She ain’t gonna work for it.)
And I’ll give you somethin’ baby, swear it’ll make you cry.
I’m gon’ turn back my mattress, and let you oil my springs,
I want you to grind me daddy, ‘til the bell do ring,
Oh daddy, want you to shave ‘em dry,
Oh great God daddy, if you can’t shave ‘em baby won’t you try?
Now if fuckin’ was the thing, that would take me to heaven,
I’d be fuckin’ in the studio, till the clock strike eleven,
Oh daddy, daddy shave ‘em dry,
I would fuck you baby, honey I’d make you cry.
Now your nuts hang down like a damn bell sapper,
And your dick stands up like a steeple,
Your goddam ass-hole stands open like a church door,
And the crabs walks in like people.
Ow, shit!
(Aah, sure enough, shave ‘em dry?)
Ooh! Baby, won’t you shave ‘em dry
A big sow gets fat from eatin’ corn,
And a pig gets fat from suckin’,
Reason you see this whore, fat like I am,
Great God, I got fat from fuckin’.
Eeeeh! Shave ‘em dry
(Aah, shake it, don’t break it)
My back is made of whalebone,
And my cock is made of brass,
And my fuckin’ is made for workin’ men’s two dollars,
Great God, round to kiss my ass.
Oh! Whoo, daddy, shave ‘em dry

O lance é que essa canção em especial chama a atenção por ser bem explícita mas durante os anos 20, 30 e 40 o jazz safadinho, cravejado de duplos sentidos e eufemismos sexuais, era mais comum nos Estados Unidos do que se conhece abertamente. E mais ousado do que o bitch pop de hoje em dia, que se proclama tão prafrentex e libertário, mesmo pros nossos padrões.

Tudo isso me trouxe à memória uma discussão que tive com meu pai sobre como da geração dele para a minha ouve um processo de encaretização do sexo. Sim, a expressão social da sexualidade no cotidiano e na cultura pop se tornaram realmente mais evidentes e derrubaram tabus dos anos 60 pra cá, mas por algum motivo a maneira como a juventude vive a sexualidade hoje em dia é repleta de amarras, preconceitos e valores conservadores que não condizem com todo o discurso de que somos mais livres sexualmente que nossos pais e avós.

Os relatos e conselhos de meus pais relacionados ao sexo com base no que eles viram e viveram em sua juventude me faz entender porque tanta gente ainda se escandaliza com certas declarações que faço em mesas de bar e conversas nos fóruns e chats interwebs afora. Digo isso porque o que eu estou vendo e vivendo na minha juventude é de algum modo decepcionante para um pré-adolescente que cresceu ouvindo borbulhantes declarações sobre como a minha geração é livre, tolerante e livre de preconceitos. Sim, porque toda essa caretice sexual afeta diretamente todo o resto de nossas vidas, inclusive os preconceitos. Mas isso é sabido e não quero ser redundante.

Muito se diz sobre como a ação social coletiva é a chave da mudança de paradigmas para uma geração e/ou sociedade, mas não adianta nada toda uma conjuntura de mobilização com objetivos comuns se dentro de cada uma das pessoas envolvidas ainda residem modelos medievais de relação sócio-sexual, preconceitos íntimos e medo do novo. Falando especificamente do meio LGBT, a reprodução dos modelos heteronormativos é algo ainda muito forte nas relações e nos relacionamentos, e isso me incomoda muito porque tudo isso acaba, no frigir dos ovos, atravancando nossas lutas polítcas contra o machismo e a homofobia, afinal essas duas coisas seguem firmes e fortes dentro do próprio universo LGBT.

Enquanto pessoas como eu ainda forem tachadas de “avançadinhas demais” por pessoas que acham que o gay efeminado é sempre quem dá o rabo, que engolir porra é nojento e degradante, que se define como o homem ou a mulher da relação e insiste no conceito castrador cristão da promiscuidade, nossas metas de mudança social estarão sempre enfraquecidas e dependentes de uma certa sorte pra acontecerem como desejamos.

Se em 80 anos passamos de shows onde cantoras como Lucille Bogan cantavam o sexo com imagens explícitas e bem humoradas com liberdade para um clipe sem graça e sem força como “S&M” de Rihanna censurado em dezenas de países por seu “conteúdo sexual pesado”, está mais do que na hora de repensar a liberdade sexual dos nossos dias, não tão livre como pensamos que ela é.

Existe a famosa frase: “Pense global, aja local”. Ela também vale pro sexo.

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(4) comments

Cido Rossi
6 anos ago · Responder

Estava eu passando por aqui, por mero acaso, e eis que me deparo com esse texto belíssimo, divinamente bem escrito (uma coisa mais rara que diamantes rosa atualmente) e de articulação perfeita! Parabéns, Cairo, desde já pela qualidade superior da textualidade, de fato “uma pérola no meio da tanta areia opaca” e desconsiderável.
Um texto que parte de uma música que tive o prazer de conhecer nestas paragens (obrigado Cairo).
Os jogos com a sexualidade presentes na letra não me parecem algo que espante quando pensamos no contexto sócio-histórico do jazz na época da cantora. Como os brancos não davam a mínima para a música negra no sul dos EUA durante a Segunda Guerra, ela tomou caminhos muito mais livres (graças a Deus!).
É justamente essa liberdade, o ponto fulcral do texto cairobraguiano (rsrsrs), que é faltante e falhança na sociedade contemporânea… e eu temo que ela só vá receber uma atenção de peso como a dada nos anos 60 e 70 do século XX depois que nossa sociedade atual der um passo à frente em meio a esse caos absurdo em que vivemos: ao mesmo tempo em que temos por aí ideias e ideais “avançadinhos demais”, temos também nossa sociedade dando vários passos para trás com o retorno dos moralismos e da ética judaico-cristã, pasmem, entre as novas gerações! OMG!
Eu, que pertenço àquela coisa amorfa, perdida e totalmente demodé que são os anos 80, sou considerado mais “prafrentex” que gente na faixa entre 15 e 20 anos de idade! Deve ser porque a gente tinha Madonna, Elton John, Michael Jackson e Freddy Mercury naquela época… rsrsrs
Culpados disso? Talvez até haja: nossos pais e os pais dessas novas gerações, por exemplo. Eles deram grandes e importantes passos à frente e nos abriram caminhos sem os quais não teríamos as oportunidades e possibilidades que temos hoje. Ao mesmo tempo, nos entregaram aos nossos avós para sermos educados enquanto eles iam conquistar os novos mercados de trabalho e vivenciar as aberturas que eles mesmos pavimentaram.
Evidente que o resultado não poderia ser outro, pois a base de qualquer coisa é a educação e educação começa no berço: um retorno dos velhos tabus, agora mascarados com óculos Wayfarer, moicano, estampas quadriculadas, tatuagens, peircings e até calça boca de sino!
Tenho um exemplo dessa situação em casa: meu sobrinho, geração mega-pós-tudo século XXI (ele tem 8 meses de idade!), sendo criado/educado/influenciado por minha mãe (criada aos moldes rígidos da década de 50!).
Que tipo de conduta ética e moral podemos esperar do meu sobrinho quando ele e a geração dele, criada nos mesmos moldes, tiver 20 anos de idade? Qual será a reação quando ele ouvir essa música de Lucille Bogan?
Eu vislumbro a necessidade de novas revoluções sexuais e do rompimento de outros tabus no caminho dele e nos nossos caminhos também, ainda que essas novas revoluções e rompimentos vão certamente se dar via internet e não mais nas ruas, o que é uma pena, pois elas precisariam se dar inicialmente na consciência das pessoas, ou seja, nem na internet e nem nas ruas.
Quanto a nós, precisamos romper a cada dia, a cada instante, não importa o meio utilizado, com as forças patriarcais que ainda tolhem nossos corações, nossos corpos, nossas mentes e nossas almas à nossa revelia, impregnadas em nós mesmos, reproduzidas em nossas condutas e em nossas linguagens.
E aqui eu estendo esse “nós” a todos nós mesmo, sem exceções, pois nós todos estamos ainda bem longe de “pensar global, agir local”, principalmente no que concerne a sexo.

Beijos mil.

Cido Rossi
6 anos ago · Responder

Estava eu passando por aqui, por mero acaso, e eis que me deparo com esse texto belíssimo, divinamente bem escrito (uma coisa mais rara que diamantes rosa atualmente) e de articulação perfeita! Parabéns, Cairo, desde já pela qualidade superior da textualidade, de fato “uma pérola no meio da tanta areia opaca” e desconsiderável.
Um texto que parte de uma música que tive o prazer de conhecer nestas paragens (obrigado Cairo).
Os jogos com a sexualidade presentes na letra não me parecem algo que espante quando pensamos no contexto sócio-histórico do jazz na época da cantora. Como os brancos não davam a mínima para a música negra no sul dos EUA durante a Segunda Guerra, ela tomou caminhos muito mais livres (graças a Deus!).
É justamente essa liberdade, o ponto fulcral do texto cairobraguiano (rsrsrs), que é faltante e falhança na sociedade contemporânea… e eu temo que ela só vá receber uma atenção de peso como a dada nos anos 60 e 70 do século XX depois que nossa sociedade atual der um passo à frente em meio a esse caos absurdo em que vivemos: ao mesmo tempo em que temos por aí ideias e ideais “avançadinhos demais”, temos também nossa sociedade dando vários passos para trás com o retorno dos moralismos e da ética judaico-cristã, pasmem, entre as novas gerações! OMG!
Eu, que pertenço àquela coisa amorfa, perdida e totalmente demodé que são os anos 80, sou considerado mais “prafrentex” que gente na faixa entre 15 e 20 anos de idade! Deve ser porque a gente tinha Madonna, Elton John, Michael Jackson e Freddy Mercury naquela época… rsrsrs
Culpados disso? Talvez até haja: nossos pais e os pais dessas novas gerações, por exemplo. Eles deram grandes e importantes passos à frente e nos abriram caminhos sem os quais não teríamos as oportunidades e possibilidades que temos hoje. Ao mesmo tempo, nos entregaram aos nossos avós para sermos educados enquanto eles iam conquistar os novos mercados de trabalho e vivenciar as aberturas que eles mesmos pavimentaram.
Evidente que o resultado não poderia ser outro, pois a base de qualquer coisa é a educação e educação começa no berço: um retorno dos velhos tabus, agora mascarados com óculos Wayfarer, moicano, estampas quadriculadas, tatuagens, peircings e até calça boca de sino!
Tenho um exemplo dessa situação em casa: meu sobrinho, geração mega-pós-tudo século XXI (ele tem 8 meses de idade!), sendo criado/educado/influenciado por minha mãe (criada aos moldes rígidos da década de 50!).
Que tipo de conduta ética e moral podemos esperar do meu sobrinho quando ele e a geração dele, criada nos mesmos moldes, tiver 20 anos de idade? Qual será a reação quando ele ouvir essa música de Lucille Bogan?
Eu vislumbro a necessidade de novas revoluções sexuais e do rompimento de outros tabus no caminho dele e nos nossos caminhos também, ainda que essas novas revoluções e rompimentos vão certamente se dar via internet e não mais nas ruas, o que é uma pena, pois elas precisariam se dar inicialmente na consciência das pessoas, ou seja, nem na internet e nem nas ruas.
Quanto a nós, precisamos romper a cada dia, a cada instante, não importa o meio utilizado, com as forças patriarcais que ainda tolhem nossos corações, nossos corpos, nossas mentes e nossas almas à nossa revelia, impregnadas em nós mesmos, reproduzidas em nossas condutas e em nossas linguagens.
E aqui eu estendo esse “nós” a todos nós mesmo, sem exceções, pois nós todos estamos ainda bem longe de “pensar global, agir local”, principalmente no que concerne a sexo.

Beijos mil.

Alex Mendes
6 anos ago · Responder

Olha, eu estava a assistir a um documentário esses dias atrás. A caretização do sexo é uma resposta ao envelhecimento da geração Flower Power, a recrudescência da liberdade sexual dos 60’s. Tudo isso pode ter vindo de várias fontes, uma delas foi a retomada do moralismo pelas ditaduras sul-americanas, o fundamentalismo do Bible Belt americano, as crises do petróleo, a sectarização das minorias e das tribos alternativas, o surgimento da AIDS, os movimentos pró-direitistas. No Brasil, o fundamentalismo de grupos religiosos do catolcismo, o movimento carismático, as igrejas neo e pentecostais, a eleição da classe média e seus valores como o bastião da moralidade vigente, teorias educacionais, a intromissão de conceitos socialistas no pensamento capitalista de toda a América e Europa. Nesse ponto, é importante se verificar que o neoliberalismo defende o ponto de vista de que o sujeito é levado a tomar as decisões por um arranjo global de ideias e costumes, que tira a liberdade de escolha das pessoas que agem globalmente. Já alguns socialistas tentam mostrar que há possibilidades de escolha, e pedem para seus adeptos escolherem o contrário.
Assim quer também os adeptos da teoria queer, de todos os movimentos pró-minorias. Eu, particularmente, acho que as nossas possibilidades de escolha são pré-determinadas pelo que é possivel se dizer, se enunciar, pelos discursos possíveis na nossa época. Mesmo quando somos diferentes, é porque há lugar para a diferença, e há diferenças que ousamos não tentar, porque não são permitidas dentro da lógica de nossas referências. Acho que o que temos de fazer é colaborar para que essas possibilidasdes se ampliem, e que caibam mais dentro do feixe de discursos que tem nos possibilitado.

Adorei seu texto. Achei uma pérola no meio de tanta areia opaca.

Baci.

Amo-te.

Alex Mendes
6 anos ago · Responder

Olha, eu estava a assistir a um documentário esses dias atrás. A caretização do sexo é uma resposta ao envelhecimento da geração Flower Power, a recrudescência da liberdade sexual dos 60’s. Tudo isso pode ter vindo de várias fontes, uma delas foi a retomada do moralismo pelas ditaduras sul-americanas, o fundamentalismo do Bible Belt americano, as crises do petróleo, a sectarização das minorias e das tribos alternativas, o surgimento da AIDS, os movimentos pró-direitistas. No Brasil, o fundamentalismo de grupos religiosos do catolcismo, o movimento carismático, as igrejas neo e pentecostais, a eleição da classe média e seus valores como o bastião da moralidade vigente, teorias educacionais, a intromissão de conceitos socialistas no pensamento capitalista de toda a América e Europa. Nesse ponto, é importante se verificar que o neoliberalismo defende o ponto de vista de que o sujeito é levado a tomar as decisões por um arranjo global de ideias e costumes, que tira a liberdade de escolha das pessoas que agem globalmente. Já alguns socialistas tentam mostrar que há possibilidades de escolha, e pedem para seus adeptos escolherem o contrário.
Assim quer também os adeptos da teoria queer, de todos os movimentos pró-minorias. Eu, particularmente, acho que as nossas possibilidades de escolha são pré-determinadas pelo que é possivel se dizer, se enunciar, pelos discursos possíveis na nossa época. Mesmo quando somos diferentes, é porque há lugar para a diferença, e há diferenças que ousamos não tentar, porque não são permitidas dentro da lógica de nossas referências. Acho que o que temos de fazer é colaborar para que essas possibilidasdes se ampliem, e que caibam mais dentro do feixe de discursos que tem nos possibilitado.

Adorei seu texto. Achei uma pérola no meio de tanta areia opaca.

Baci.

Amo-te.

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