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Não rezem missa quando eu morrer

17/05/2010 | 15:01

Como os amigos mais chegados já sabem, o companheiro do meu pai, com quem ele viveu por 5 anos e meio, faleceu na manhã do dia 5 de Maio de 2010. No último fim de semana, eu fui à casa de meu pai fazer a primeira visita depois do ocorrido. Coincidentemente, a missa em que o nome do meu padrasto seria citado ocorreu ontem e eu compareci, pelo menos a parte dela.

Eu, que devo ter ido em missas 3 vezes na vida, se muito, fiquei estupefato ao me dar conta do que estava sendo dito, ou melhor, pregado na Igreja Matriz da cidade de Mongaguá. Foi uma das situações mais revoltantes da minha vida. Mas deixa eu contar tudo direitinho.

Minha primeira impressão ao entrar na igreja foi de que a renovação carismática é uma medida de defesa contra as igrejas petencostais que se utilizam de música e catarse para conquistar seus fiéis. A única diferença é que a igreja católica faz uso apenas de música leve e coreografias simples, tudo visando o “louvor”. Esse primeiro impacto já me deixou intrigado e um pouco assustado, afinal, eu sou um completo ignorante no que diz respeito às cerimônias da igreja católica. Passado esse momento das canções, começa a leitura do texto do dia. Eu simplesmente não ouço nada além de “blá blá blá whiskas sachê blá blá blá” na parte em que os coroinhas, sacristãos ou coisa que o valha lêem, em monotom, os versículos. Mais uma musiquinha e uma dancinha. Então o padre, todo poderoso com sua vestimenta em seu pedestal superior, começa a falar.

Ele começa perguntando quem faz aniversário no dia e na semana, pede uma salva de palmas, que Deus abençoe e trololó. Aí ele pergunta quem é de fora da cidade e pede outra salva de palmas e explica que acha uma grande demonstração de fé que o turista encontre tempo durante seu período de lazer para orar. Então ele começa o que eu acredito ser o climax da coisa toda: a pregação.

Realmente não sei o contexto da coisa toda, mas minha atenção é puxada para o que o padre fala a partir da seguinte afirmação: “Ou a pessoa é de Deus ou é do Diabo, não tem outra opção”. Eu rio do nível de ridículo presente nessa afirmação e continuo a prestar atenção. Ele reafirma isso de várias maneiras e exemplos e diz que “ser de Deus é parte essencial da condição de ser humano. Se a pessoa não é de Deus, ela não tem humanidade”. Mais uma risada minha e olho pro meu pai, que está de pé ao meu lado. Ele solta um suspiro de enfado e eu rio mais uma vez. Sim, estava me divertindo às custas da ignorância e visão turva daquela coisa toda.

Quando então, ele começa a falar que coisas são de Deus e coisas são do Diabo. “blá blá blá whiskas sachê blá blá blá quando você ama e casa com sua esposa ou marido, é uma coisa de Deus, casamento entre pessoas do mesmo sexo não é coisa de Deus blá blá blá”. Suspensão do tempo aqui. Minha irmã, filha do companheiro do meu pai, sentada num banco a alguns metros na nossa frente, instantaneamente nos olha pra ver nossa reação. Eu não consigo tirar a expressão de choque e raiva do meu rosto e conter minha inquietação. Olho pro meu pai e ele me diz: “Fica quieto, Cairo”. Eu respondo: “Quero sair, pai”. Ele diz: “Ignora, tenta ignorar.”. Minha inquietação não pára e minha vontade é de ir até o púlpito e falar poucas e boas para aquele padre.

Segundos depois, meu pai me cutuca e fala: “Vamos sair”. Assim que eu piso fora da igreja eu sinto um alívio, como se acabasse de sair de uma piscina depois de um exercício de apnéia. Como se eu tivesse me livrado de uma tortura. “Que absurdo!” eu grito assim que saímos e nos distanciamos do templo. Meu pai, nitidamente enraivescido, me diz que é isso que perpetua e vai continuar perpetuando a homofobia na nossa sociedade. Minha raiva é enorme porque ela vem junto de uma surpresa intensa. Por mais que eu tivesse a consciência de todo o conteúdo homofóbico da pregação católica, presenciar aquilo naquela situação específica foi demais pra mim.

Mas além da questão global da coisa, da perpetuação dos valores preconceituosos, da influência desse pensamento religioso em nosso sistema político, da farsa do Estado Laico, outra coisa me incomodou muito mais. O que mais me atingiu naquele momento foi saber que meu pai, que estava indo prestar homenagens ao companheiro falecido com quem teve uma relação homoafetiva estável durante 5 anos e meio, teve que escutar tais afirmações do mesmo padre que iria pedir para que as pessoas presentes orassem pela alma do meu padrasto. Uma ironia fina para o padre, mas extremamente cruel para o meu pai. E para mim.

O que teria acontecido se, como eu desejava, meu pai, eu ou minha irmã tivessemos ido até o padre depois da missa pra dizer que uma daquelas pessoas para quem ele pediu preces era um homossexual que vivia num casamento homossexual? Qual seria a reação daquela pessoa que se coloca numa posição de liderança tão benevolente diante dessa situação irônica? O que ele diria? Nunca saberei.

Que me perdoem os amigos católicos (grandes amigos que tenho e amo e que me tratam igual a todos) mas eu concordo com meu pai: aquele homem não tinha dignidade para prestar homenagens ao meu padrasto. E a todos os amigos, uma exigência: não rezem missa quando eu morrer, façam uma festa. Eu não preciso de salvação ou redenção do espírito dada por alguém que se julga o representante de Deus. Eu preciso de celebração daqueles que eu amei e que me amam. Isso sim me dará paz de espírito.

PS. Coincidência ou não, essa história aconteceu ontem e hoje, dia 17 de Maio, é Dia Mundial de Luta Contra a Homofobia. E são fatos como o que eu contei acima que me dão força pra lutar por justiça, iluminação e paz nesse mundo.

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Cairo Braga, Fluxo de Consciência, lgbt, Política
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Cairo Braga, gay, Igreja Católica, Não Homofobia!, Segura Berenice
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